Cinema e TV no image

Published on outubro 30th, 2009 | by Colaborador Acidulante

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Besouro: Rico em Brasilidade, mas pobre de Ginga

Nessa época de cinema nacional “Globalizado” (no sentido de feito pela GloboFilmes), é muito curioso encontrar um produto nacional como Besouro. Ele não tem nada a ver com a última leva de filmes brazucas de conversões da TV para o cinema, como é feito, com eficiência, por Daniel Filho. Também passa longe dos conflitos intra urbanos das cidades modernas, da ultraviolência estetizada que foi tão duramente criticada no início dos anos 2000, que culminou no Tropa de Elite. Muito pelo contrário. É verdadeiramente original em sua base e cenário, algo que raramente pode ser falado hoje no cinema nacional. Besouro é um filme brasileiro tanto quanto um filme pode se auto intitular dentro de um gênero tão amplo. E esse é exatemente o problema da produção, que não se decide nem como drama histórico, nem como filme de ação. Seria bom aprender com os chineses que operaram os cabos, por que eles sim, entendem o que é necessário em filme de porrada.

Besouro retrata o período imediato da pós escravidão no interior do recôncavo Bahiano. Focado na cultura negra, somos apresentados a Mestre Alípio Interpretado por Macalé. Ele estereótipo do Preto Velho da figura do candomblé, figura referencial e reverenciada por conhecer os caminhos tanto políticos quanto Místicos e culturais. Também somos apresentados ao ainda-não-super capoeirista Besouro, interpretado pelo mestre de capoeira Aílton Carmo. Sob a já experimentada batuta da preparadora de atores Fátima Toledo (Cidade Baixa e Cidade de Deus), todos os atores parecem bastante à vontade, mesmo os que não são atores profissionais.

Um pra lá, dois pra cá, e um pé na cara!

Um pra lá, dois pra cá, e um pé na cara!

Após a morte de Alípio nas mãos dos Subordinados do Coronel Venâncio, encarnado por Flávio Rocha, sem maldade o suficiente no sangue. Deveria receber uma tranfusão de maldade do pernambucano Irandhir Santos, que interpreta o capitão-do-mato Noca, esse sim o tipo de vilão que todos amam odiar num filme de ação. Admitindo que Tio Ben, quer dizer, Mestre Alípio, morreu por seu descuido, e com alguma ajuda da interessantíssima figura de Exú, Besouro aceita que com Grande Responsabilidade vêm grande Poder e se refugia nas matas, onde recebe bençãos dos Orixás, numa sequência extremamente interessante. Após isso, ele inicia sua campanha terrorista para conseguir a real libertação de seu povo das garras do Coronel Explorador.

Vai lá e desce o malho neles, negão!

Exú, parafraseando General Zod (Superman 2): Ajoelhe-se perante Zod!

Okay, eu sei que Besouro, o Corda Dourada, é uma figura histórica e tem de ser tratado como um certo respeito e reverência pela sua importâncual cultural. Mas o problema é outro, e por assim dizer, mais embaixo: Quando se faz uma história para um filme, ficcional, inspirada ou não, é preciso ter uma idéia MIUTO clara de que tipo de história deseja ser contada. E cada tipo de história, ficcional ou não, possui suas próprias necessidades de alocação de elementos. Bastardizando bem a coisa, se você quer contar a história do Homem Aranha, você não pode gastar 40 minutos falando de como os fotógrafos freelancer são mal tratados nas redações.

Portanto, Besouro peca não pela fotografia, extremamente bem feita e planejada com esmero. Também não falha pelo áudio, problema comum do cinema nacional feito fora de um estúdio de TV. Muito pelo contrário, os sons são limpíssimos, e tem excelente trilha da Nação Zumbi e Gilberto Gil, entre outros.O problema é que falta besouro no filme. Olha vou ser franco com vocês que estão lendo. Se você faz “um filme de super herói”, vá assistir filmes de super heróis. No mínimo, assista Star Wars. Se puder ir mais além, leia as obras de Joseph Campbell sobre a estrutura dos mitos, que é a bíblia de cabeceira deste tipo de história. Primeiro, os heróis APRENDEM a usar as habilidades que recebem. Isso faz parte e facilita a identificação do que ele pode ou não fazer, e cria empatia com a audiência. Besouro passa da capoeirista competente a Super Capoeirista mais rápido do que Michael Schumaker passa da primeira pra sétima marcha, com a benção dos orixás. Ainda bem que os orixás não abençoaram Michael Schumaker senão ele ainda tava correndo até hoje.

Se ISSO não resulta num nocaute automático, nada mais consegue...

Se ISSO não resulta num nocaute automático, nada mais consegue...

Essa transformação em herói leva tempo em tela. E em Besouro, esse tempo é gasto com o desenvolvimento de outros personagens, como o amigo de infância de Besouro, Quero-Quero(Anderson Santos), e a bela Dinorah (Jéssica Barbosa, que também interpreta a orixá Iansã), namorada dele, que serve na casa grande do coronel, mas é envolvida com a capoeira/movimento de resistência.

Portanto, se tem alguma coisa que falta, é o próprio Besouro no filme, e sendo esta uma releitura fantástica de uma figura histórica, ficou faltando a relação dicotômica entre vilão e herói, e sobretudo, faltou o combate. Isso. Faltou capoeira num filme sobre capoeira. Faltou vermos Besouro arregaçar, com felicidade, os minions empregados do vilão coronel from hell. Em outras palavras, faltou o diretor João Daniel Tikhomirrof conversar com o Dee Dee, o responsavel pelas coreografias e usos dos cabos comuns aos filmes de Kung Fu de Hong Kong, e aprender algo com ele. Se o enfoque fosse um drama histórico, era melhor ter deixado os orixás um pouco mais fora dessa. Não foi o caso.

Não me entendam mal. Besouro vale MUITO a pena. É um filme de direção estética sensível, que mostra uma época pouco retratada e por um ponto de vista diferente do que estamos acostumados, algo que é MUITO necessário no cinema brasileiro atual. Ele tem atores que se encaixam bem nos papéis, preparados com cuidado, com coreografias de luta curtas mas competentes, e algumas sequências perturbadoramente eficientes, como o contato de Besouro com os Orixás, que ficaram magistralmente representados, ao menos para mim que conheço pouco sobre o candomblé. Mas ficou faltando definir BEM que aspecto do Corda Dourada seria contado: O super-herói ou o guerrilheiro.

O que ele tem de Genial – Brasilidade extrema, bons atores (profissionais ou não), bem coreografado e original. Lutas legais, Orixás GENIAIS. Exú é decidadamente “O Cara”.

O que ele Não tem de genial – Falta Besouro, que fala pouco e aparece menos do que deveria. Falta um confronto satisfatório com um oponente digno. As coisas ficam muito fáceis e isso prejudica a trama. Desperdicio de excelentes personagens.

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