opinião

Published on abril 10th, 2015 | by klozz

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O ódio nas redes sociais

Observando os usos das redes sociais penso em como a democratização ocasionada pela internet também proporcionou a pluralização de ideias que no nosso cotidiano são esmagadas pela diferença inerente que ocorre no dia a dia. Pessoas encontravam amigos e ideias a quilômetros de distância. O virtual ia aos poucos se sobressaindo. E isso era bom. Porém, alguns especialistas já mostravam que a internet poderia ser uma chave mestra para pessoas mal intencionadas como pedófilos, estelionatários e demais criminosos em geral. O alerta era de que um ambiente livre por si só poderia ser alvo de pessoas que se aproveitassem disso para o bem próprio.

Daí veio a massificação da internet e com ela a glamourização de ideias comuns. Conversas pessoalmente impensáveis na realidade viraram rotina na internet. Em que ambiente você destilaria seus gostos mais obscuros com um desconhecido? O famoso anonimato da internet reconstruiu as relações sociais modernas. Agora eu posso destilar todo o meu ódio ao meu vizinho sem ter medo de ser repreendido e não é só pela sensação de inimputabilidade que a internet me proporciona, mas também o fato de que a minha mensagem, massificada, por mais agressiva e grotesca que pareça quando ecoar na rede sempre terá público e curtidas. Ou seja, a internet fez o ódio se ouvir. Da mesma forma que as pessoas compartilhavam gostos e amores na rede elas agora podem compartilhar o ódio juntas.
Parte do compartilhamento do ódio surge por uma das coisas que a internet prometeu: informação. A internet prometeu uma informação mais rápida e democrática. E nisso ela não mentiu. No entanto, há uma sutil diferença entre informação e conhecimento. Informação é qualquer mensagem que eu possa transmitir sobre algo, conhecimento já é a reflexão profunda e crítica sobre este algo. Filósofos como Walter Benjamin na década de 30 já denunciavam a problemática da era da informação. A internet nos ataca diariamente, não só ela é claro, a mídia em geral, não temos tempo de nos defendermos. E o pior de tudo, não só temos pouco tempo como temos poucos recursos intelectuais de defesa.
Os gregos possuíam uma palavra para isso: “Doxa”. A opinião comum. O senso comum. Aquela opinião que não colocamos a prova. O famoso bater no peito e dizer: “É a minha opinião!”. Vociferar o que pensa como se fosse uma verdade inabalável. O comodismo faz com que as pessoas se defendam com agressões e pouca reflexão. Refletir dá trabalho. Reconhecer o erro é vergonhoso. É mais fácil agredir.
Esses elementos podem causar o ódio contido nos comentários da internet. Um misto de ignorância e falta de reflexão argumentativa com um desejo feroz de ser livre e detentor do poder da sua própria palavra. Da democracia, desejo e liberdade de expressão surge, paradoxalmente, um potencial ditador. Um ser que apesar de viver no ambiente mais livre possível para a humanidade reverbera gritos de ordem e de ódio para aqueles que não enxerga como seus semelhantes. Em contrapartida, no mundo real, aquele em que pegamos o elevador com estranhos e desejamos bom dia, continuamos os mesmos seres inseguros de nossas opiniões, onde pensamos consigo mesmos com medo da exposição ao ridículo. Porém, assim como alguém que ganha uma capa da invisibilidade e comete crimes sem peso na consciência, utilizamos desse escudo chamado internet para proliferar todos os ódios guardados no nosso cotidiano.
Manifestamos de forma virtual o ódio mais real que possuímos internamente.
Em busca de curtidas a internet virou terra do ódio e deu voz ativa às mentes perturbadas do mundo. E isso, aparentemente, inclui todos nós. Infelizmente.

Henrique Pinheiro, Professor de História e Filosofia, Especialista em Direitos Humanos.
Fonte: Henrique Pinheiro

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