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Published on outubro 25th, 2009 | by Colaborador Acidulante

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Distrito 9 – Os camarões e sua humanidade

Ficção científica é uma coisa curiosa. Embora seja uma velha discussão em velhos círculos, no fim das contas, ela trata de supor como a alma humana se comporta perante mudanças de  mundo drásticas.  Isso parece ser especialmente verdade  em Sci-Fi que envolvam seres alienígenas. (nem todos o fazem, vale lembrar).

Por vezes essas mudanças ressonam em algum fator externo.  Como o medo do escuro/desconhecido em Alien (1979),  de Ridley Scott. Esse medo pode passar para o maravilhamento como aconteceu no belo Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), ou Cocoon(1985). Não vou nem citar E.T – O Extra Terrestre (1982), como exemplo de nada, por que aquele filme é brega pra caramba.

Porém, outras vezes, essa mudança apenas ressona em algo que a humanidade já possui DENTRO de sí, e não fora dela. A medo da anulação do que nos faz humanos em Invasores de Corpos(1978). A santidade das nossas lembranças e corpos em O Vingador do Futuro(1990), ou a certeza que não somos nem de longe tão civilizados e tolerantes como poderíamos ser, à exemplo do excelente Inimigo Meu(1985).

Esse tipo de outrificação e exposição dos absurdos que a humanidade é capaz é central em Distrito 9 (District 9, Africa do Sul/Austrália), na opinião deste que escreve um dos melhores filmes do ano até agora, e na seção ficção científica, um dos mais legais que assisti ultimamente, do lado do novo Jornada nas Estrelas de J.J. Abrahms. Dirigido por  Neil Blomkamp, o Distrito 9 nos mostra que não é necessário ter uma quantidade estelar de dinheiro (é barato para os padrões de hollywood), nem experiência como diretor (é o primeiro longa metragem dele), basta ter uma boa idéia.

Blomkamp foi descoberto por Peter Jackson, o diretor da mega série de fantasia O Senhor dos Anéis,, que assistiu seus excelentes curta metragens, como Tetra Vaal e TempBot. O estreante originalmente foi incumbido de realizar a adaptação para as telonas da a famosa franquia de games Halo: Combat Evolved. O projeto acabou não indo pra frente, mas ele meio que ganhou de esmola o que sobrou do dinheiro, e com essa verba, fez o Distrito 9

Conhecendo os resultados desse tipo de adaptação, nós que gostamos de ficção científica, temos que erguer as mãos para o Arquiteto que decide que filme de ficção científica vai prestar ou não. O filme nos leva para a Africa do Sul, em Johannesburgo, onde uma nave alien decide fazer a entrada no nosso planeta. Ela fica lá por cima feito um objeto de mau agouro sem fazer nada, até que seus integrantes, quase um milhão deles, são resgatados e trazidos do chão. A nave continua por lá, e sem perspectivas de ir embora.

Se esse troço cai a gente tá MUITO ferrado...

Se esse troço cai a gente tá MUITO ferrado...

E agora, além de aliens, eles também são imigrantes ilegais. 🙂 Acompanhamos, assim, um documentário da MNU, a força de controle que trabalha o campo de concentração/vila de refugiados onde esses Camarões (como são chamados de forma ofensiva pelos humanos). Para compor esse documentário, Blomkamp espertamente mistura depoimentos de atores com não atores, falando de imigrantes ilegais humanos mesmo, o que dá muita credibilidade para a coisa toda.

Os aliens também ficaram muito bem pensados. É facil cair no erro de produções como Star Wars e O último Guerreiro das Estrelas, onde aliens são todos humaniformes, falam inglês fluente ou com algum sotaque, e se comportam como perfeitos cavalheiros ou russos sedentos de sangue. Os Camarões são tão alienígenas quanto quanto os xenomorfos de H.G. Giger em Alien, falam com uma linguagem própria, e tem hábitos incompreensíveis. Você nunca mais vai conseguir olhar para comida de gato do mesmo jeito depois de Distrito 9, lhe asseguro.

Eu falo tudo que vocês quiserem, mas mandem o cara com Baygon embora!

Eu falo tudo que vocês quiserem, mas mandem o cara com Baygon embora!

Isso tudo colabora com sua inumanidade e estranheza, mas ao acompanhamos Wikus Wan der Werwe, um fiscal da MNU que tem de “realocar” 1.8 milhões de camarões, percebemos que é a humanidade que é o problema. É facil lembrar dos genocídios de ruanda, dos campos de concentração e das nossa próprias favelas brasileiras, dos negros sendo espancados nos anos 60 nos EUA e no tratamento que os mexicanos levam nas fronteiras. Residentes, convidados indesejados, mas nunca gente. Em Distrito 9, a expressão Illegal Aliens, usada pela imigração americana para imigrantes ilegais, mostra toda a sua verdadeira cara, e portanto, a verdadeira cara da humanidade, quando é obrigada a conviver com algo que não gosta, não entende, não quer saber mais e tem raiva de quem sabe.

Junte isso um dos melhores designs de armaduras de combate e props desde Alien 2, cenas de ação mecanizada que devem ter feito Michael Bay chorar de inveja por ter feito Transformers 2 e não ter chegado nem aos pés do que o estreante Blomkamp fez.

E por falar em Michael Bay…

EXPLOSIONS!

Distrito 9 vale a pena. Assista com olhar carinhoso, e veja que é possível achar humanidade nas situações mais degradantes.

O que ele tem de Genial: CGI decente, bela mistura de real com ficção, premissa original, uma excelente formatação de cenário, passa longe de Tóquio, Nova York, Londres e outras pistas de pouso Alien que resultam em ação armada pelos EUA. Só atores desconhecidos.

O que ele tem de fraco: Personagem principal chato e previsível, e as vezes não convence. Final previsível.

Concorda? Discorda? Mande sua opinião sobre o filme!

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Comments

4 Responses to Distrito 9 – Os camarões e sua humanidade

  1. Lourinaldo Rodrigues says:

    hmmmmm… acabei de ver o trailer… parece interessante…

    olha Bernardo… acho que o final ser previsível não deveria ser incluído como algo seboso no filme… mas o personagem principal ser previsível, isso sim eh seboso…

    uma coisa que achei muito legal é que no trailer alguém pergunta “como suas armas funcionam” e o camarão responde: “we just wanna go back home”.
    Eu n sou especialista em cinema, tampouco em SciFi… mas é difícil a gente não pensar em em catástrofe quando algum filme do gênero eh lançado… eles sempre vêm para invadir, pilhar, colonizar, etc etc etc… e esta frase quebrou este modelo batido…

    mas isso não significa que são bonzinhos e vierem em missão de paz e bla bla bla…

    um bom filme precisa de um bom argumento… e um filme sem bons argumentos acaba sendo criticado de forma negativa antes de chegar na metade… eles estarem lá ao acaso e com a nave encalhada me soou muito convincente e original…

    acho que filmes de ficção não devem tentar nos contar uma história fantástica para nos fazer acreditar que aquilo tudo eh verdade… e me parece que exatamente isto que foi feito…

    de resto… acho que só assistindo mesmo… assim que eu puder volto aqui para dizer oq achei…

  2. Bernardo says:

    Volte mesmo Lourinaldo. 🙂

    Como eu disse na resenha, eu gosto MUITO de D9. Acho que ele tem um premissa realmente original, coisa rara. Mas eu (e apenas eu, veja bem…) acho que ficção científica tem sim que quebrar moldes, especialmente no fechamento da idéia. É meio que fazer a conclusão de uma tese. Infelizmente, não tenho como desenvolver mais isso sem fazer um spoiler por aqui, mas como eu falei, vá ao cinema, e veja o filme com um olhar carinhoso.

    Depois volta pra cá e coloca o que achou, que eu estou curioso.

    Abraço

  3. Samuel says:

    Assisti o filme ontem no Cinema…
    Achei muito interessante em todos os aspectos, principalmente a questão do preconceito, mostrada no começo, na visão dos humanos, e depois com a reviravolta genética, quando Wikus vive o outro lado da moeda…
    Eu acredito que a ideia principal do filme foi passar uma mensagem de modo que atingisse todos que assistissem ao filme…sendo que aliens, batalhas, efeitos especiais, foram apenas atrativos (de qualidade incrível, diga-se de passagem) para que mais pessoas recebam essa mensagem de respeito e compreensão das diferenças…

  4. Sergio says:

    Há muito mistério no que diz respeito aos ovnis.

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